segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Há 50 anos - O Globo noticiava em 27 de dezembro de 1958

O jornal O Globo publica uma Seção chamada Há 50 Anos onde reproduz matérias publicadas no jornal. Na coluna Porta de Livraria de Antonio Olinto publicada em 27 de dezembro de 1958 ele fazia uma retrospectiva do ano literário:

"Ano de muito livro, este de 58. De movimento editorial maior do que os imediatamente anteriores. Num ligeiro retrospecto, farei um resumo dos acontecimentos que, na literatura, deixaram sua marca nestes 365 dias.

O grande romance do ano foi Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado. Um dos primeiros, na ordem de lançamentos, foi Talvez alguém se salve, de Plínio Bastos. Ernâni Sátiro voltou às livrarias com Mariana. Nestor Duarte fixou um período crítico da vida social brasileira em Tempos temerários. João Felício dos Santos veio com João Abade ressuscitar o tema Canudos. Paulo Rodrigues estreou com Memórias de um galo de briga. Fora do Brasil Graham Greene publicou Our man in Havana; Michel Del Castillo espantou o leitor francês com seu Le colleur d'affiches; o sueco Per Lagerkvist (Prêmio Nobel) publicou The Sybil, e o maior lançamento do gênero em Portugal foi talvez o romance de Alves Rodol - A barca dos sete lemes.

A grande surpresa do ano, em matéria de conto, foi o livro Água preta, de Jorge Medauar. Newton Beleza publicou Estranhas aparições; Hélio Pólvora estreou com Os galos da aurora. Lígia Fagundes Teles tornou a mostrar ser dona do gênero com Histórias do desencontro. Harry Laus apareceu com Os Inocentes.

Fora do Brasi, a contista dinamarquesa Isak Dinesen (pseudônimo de Karen von Blixen) teve dois livros publicados tanto em dinamarquês como em inglês: Las tales e Three stories."

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Livro da Confraria dos Bibliófilos será doado para bibliotecas de Santa Catarina no dia 27


A Confraria dos Bibliófilos do Brasil, associação nacional com sede em Brasília e que tem entre seus associados bibliófilos como José Mindlin, escolheu para sua publicação especial de final de ano uma seleção de contos de Harry Laus.

A edição de arte, em tiragem limitada, totalmente em tipografia artesanal, com papel especial e encadernação manual é distribuído apenas entre os associados da Confraria e teve ilustrações produzidas para o livro pelo artista plástico catarinense Jayro Schmidt especialmente convidado para o trabalho.

A Família Laus, como forma de tornar mais acessível a obra resolveu doar alguns de seus poucos exemplares para bibliotecas públicas de SC. Foram escolhidas, por conta de sua representatividade e ligações com o escritor, a Biblioteca da UFSC – Universidade Federal de SC, que preserva o acervo de Harry Laus no Núcleo de Literatura e Memória do Depto. de Língua e Literatura Vernáculas do Centro de Comunicação e Expressão da UFSC, trabalho iniciado pela professora Zahidé Lupinacci Muzart (e que estará presente no evento); a Biblioteca do Museu de Arte de Santa Catarina onde Laus foi diretor por vários anos; e a Biblioteca Pública do estado de Santa Catarina por sua grande visitação pública.

A solenidade acontecerá na Sala Harry Laus do Masc com a presença de seu diretor João Evangelista de Andrade Filho, no dia 27 de maio (mesmo dia e mês em que faleceu Harry Laus) a partir de 18 horas e 30 min, com a presença de todas as diretoras das bibliotecas: Narcisa de Fátima Amboni, da Biblioteca da UFSC, Élia Mara Magalhães Brites da Biblioteca Pública do estado e Heloísa Helena Caminha Bradacz da Biblioteca do Masc.

Estarão presentes ainda a presidente da Fundação Catarinense de Cultura, Anita Pires, bem como farão uso da palavra a professora Luisa Cristina dos Santos Fontes, da Universidade de Ponta Grossa e editora da revista da UEPG, cuja dissertação de mestrado em Letras-Linguística, em 1997, foi sobre a obra de Harry Laus; a professora Taiza Mara Rauen Moraes, da Universidade de Joinville e diretora do Proler, cuja tese de doutorado em 2002, foi sobre os Diários de Laus (transformada em livro pela Editora Letradágua de Joinville); e o presidente da Academia Catarinense de Letras, Lauro Junkes, amigo de Laus e autor de vários textos e artigos sobre ele.

A Família Laus estará representada pelo professor Cesar Laus Simas, da Universidade do Vale do Itajaí, pelo professor Ricardo Laus Simas, do Colégio Atlântico de Itapema, a professora universitária e psicóloga Marilena Laus Bayer e Roberto Laus, economista e empresário da comunicação em Florianópolis, que serão responsáveis pela entrega dos exemplares do livro da Confraria.

Também estarão presentes prestigiando a cerimônia outras pesquisadoras que se debruçaram sobre a obra de Harry Laus produzindo trabalhos acadêmicos. São elas Maria Aparecida Borges Vieira (dissertação de mestrado em 2007), Maria Albertina Freitas de Melo (dissertação de mestrado em 2001), Maristela Della Rocca Medeiros (dissertação de mestrado em 1998). Todos os trabalhos tiveram como orientadora a professora Zahidé Lupinacci Muzart da UFSC, grande responsável pela preservação e divulgação da obra de Harry Laus e que também se fará presente.

Entre os amigos de Laus já confirmaram presença Teresa Collares, ex-diretora do Masc após sua saída em 1992, e Vinícius Alves da Editora Bernúncia, que publicou em livro algumas das obras de Laus.

Por um agradável coincidência a entrega do exemplar do livro da Confraria para a Biblioteca Pública do estado coincide com o aniversário da instituição que acontecerá quatro dias depois (154 anos de fundação).

E para fechar com chave de ouro o evento as ilustrações originais de Jayro Schmidt feitas para o livro estarão expostas no Masc cedidas para a data numa deferência especial da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, cortesia de seu presidente José Salles Netto.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Os Incoerentes


Os Incoerentes, primeiro livro de Harry Laus, contendo 13 contos, com capa de Luis Canabrava, lançado em 1958 pela Editora e Livraria São José. O livro ganhou naquele ano o prêmio Afonso Arinos (contos) da Academia Brasileira de Letras que também teve, em outros anos, ganhadores como Aurélio Buarque de Hollanda, Bernardo Élis e Lygia Fagundes Telles. A edição, raríssima, tem alcançado alto preço entre colecionadores.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Biografia de um Museu


Biografia de um Museu foi um dos sonhos de Harry Laus que se transformaram em realidade, embora só tenha acontecido após a sua morte...

17 de julho de 1989: Nancy Therezinha Bortolin, do setor de Pesquisa e Documentação do Museu de Arte de Santa Catarina (MASC), na época, recebeu um bilhete de Harry Laus pedindo para encaminhar o projeto. Desde então, Nancy não descansou até atender o desejo do crítico e escritor, que morreu bem antes de ver seu sonho realizado, impedido principalmente pela falta de apoio e de verbas. (O projeto foi editado em 2002, dez anos após sua morte).

Hoje, Biografia de um Museu é uma realidade e está entre as cinco publicações do gênero no Brasil graças ao trabalho da equipe da Associação dos Amigos do Museu de Santa Catarina, presidida por Onor Filomeno.

Nas suas 216 páginas, o livro-catálogo contém toda a história do MASC desde sua criação, em 1949, até os dias atuais. A publicação conta com textos de personalidades ligadas às artes catarinenses como Salim Miguel, criador do Grupo Sul e um dos fundadores do MASC; o ex-diretor do Museu Nacional de Belas Artes Alcídio Mafra; o artista plástico e escritor Jayro Schmidt, além de depoimentos de críticos de arte, artistas e ex-diretores do MASC, como o de Harry Laus.

São 1.454 obras reproduzidas em preto e branco com suas respectivas descrições e mais 20 obras especiais, em cores, estas últimas representando o acervo inicial do museu. As fotos têm a assinatura de Fábio Cabral.

"Biografia de um Museu" é uma doação da Malwee Malhas, com patrocínio da Caixa Econômica Federal e da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

Belíssimo material biográfico que conta a história do Museu de Arte de Santa Catarina desde sua fundação. Esta obra registra e eterniza a memória cultural de uma comunidade, como sua identidade, reunindo a catalogação de 1454 obras do acervo do MASC e tornando-se um trabalho de valor cultural e histórico.

sábado, 3 de maio de 2008

(1) Corrente ampliada

Com Mário Faustino na praia de Copacabana, em 1955


Num bar de esquina da Barata Ribeiro com a Siqueira Campos, eu tomava um cafezinho antes de ir para o Ministério da Guerra, onde o expediente da Diretoria de Armamento começava às 11 horas. De Juiz de Fora à Vila Militar, da Vila ao Ministério, agora podia dormir tarde, acordar sem o alarde do despertador.

Foi nesse bar que encontrei Walter Wendhausen, catarinense, meu conhecido das noites de Copacabana. Apresentou-me seu companheiro de apartamento, Luís Canabrava, contista premiado em São Paulo com o livro Sangue de Rosaura. Morava no 418 da Barata, eu no 435 do outro lado da rua. Bastaria o fato de trabalharem em publicidade (na Sears, depois na Mesbla) para nos unir. Meu fascínio pela propaganda vinha de longe, quando mandei o layout de um anúncio para uma agência de Porto Alegre e nunca soube o resultado. Mas havia outros elos: ambos desenhistas e pintores. Walter conhecedor da música popular, guardando seus preciosos discos numa velha geladeira pintada de verde-oliva.

No 418 morava também o contista Renard Perez, irmão do gravador Rossini Perez, e o ator Jason Cesar. No apartamento junto ao meu, o jornalista Antônio Pinto de Medeiros, conhecido de Natal, redator de O Jornal. Sálvio de Oliveira, em frente ao meu prédio, completava este simpático quadro de vizinhança, onde não faltavam gostosas confabulações sobre arte, literatura e teatro, algumas vezes acompanhadas pelo brilho verbal de Jayme Maurício ou a irreverência de Sansão Castello Branco.

Sansão aparecia sempre de improviso, sandálias nordestinas, uma pasta com desenhos, projetos de decoração, o caderno de capa preta com os telefones “de todo o Rio de Janeiro”. De calça cinza, larga camisa preta, levou-me um dia a um velho edifício da rua Barão de Ipanema:

- Eneida, este é o Laus, oficial do exército, também contista.

Eneida, outra pessoa-chave de minha vida, uma das mais importantes como ser humano autêntico. De uma vivacidade sem limites, tinha seu caderno com os telefones também “de todo o Rio”. Jornalistas, críticos de arte, compositores, cantores, conhecia a todos, por todos conhecida como cronista do Diário de Notícias, responsável pelo Baile do Pierrots, lançadora das tardes de autógrafos na Livraria São José de Carlos Ribeiro.

Numa livraria ou galeria de arte, na entrada dos teatros ou no bar Vermelhinho, chegava com o ruído das pulseiras e colares de prata, os ativos olhos verdes saltando de uma pessoa a outra, beijos, abraços, um dito gostoso, uma palavra de humor. Mulher excepcional, amiga incondicional de seus amigos, defendia-os mesmo no erro:

- Sei que você não está certo, seu porcaria, mas afinal somos ou não somos amigos?

Impossível relacionar todas as pessoas conhecidas através de Eneida. Algumas, pura apresentação; outras, convivência rápida, sem consequência; mas também muitas de sólida ligação. Na literatura, Jorge Amado, James Amado, Aníbal Machado, José Condé, Valdemar Cavalcanti, o coronel M. Cavalcanti Proença, além de Antônio Bandeira, Ana Letícia, Rossini Perez, nas artes plásticas. Figura obrigatória nos Bailes do Pierrots, Elizeth Cardoso cantava sem se fazer de rogada nos grandes almoços de sábado, em casa de escritores e artistas.

Jayme Maurício, como bom gaúcho, aparecia no 435 com uma garrafa de vinho. Um dia, em 1954, trouxe Mário Faustino, o poeta, o maior poeta com quem convivi, poeta desde o amanhecer até a noite. Antes de dormir, para o descobrimento de novas palavras, ia avançando sua busca nas páginas do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Conversação instigante, agressiva, fulgurante, não concedia aos outros o que não concedia a si próprio: comodismo e improviso na criação artística.

Quando Mário voltou de Belém do Pará, onde morava, para trabalhar na Fundação Getúlio Vargas, ficou hospedado dois meses comigo. Esse período permitiu-me conhecer e avaliar sua inteligência, a cultura profunda. A presença do poeta trazia uma grande carga de emulação. Insistia para que se trabalhasse, lia sem cessar e, de vez em quando, interrompia a leitura para mostrar uma descoberta, fosse um poema inteiro, um verso ou uma simples palavra.

Tudo isso reforçou em mim uma convicção posta em letra de forma numa entrevista que concedi a um jornal de Belém, onde estive com Eneida e Renard Perez em 1956:

- Escrever pra mim, corresponde a um necessidade interior que posso, quando muito, adiar; impedir é impossível.

Mas, em 1956, ia perder o amigo (Sansão) que me chegou sob a forma envolvente e mágica de um balé.

(Capítulo I, texto 5, do livro De-Como-Ser – Memórias de Harry Laus, 1978)

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Grandeur sans fard / Grandeza sem disfarce


Avec sincérité et compassion, l'écrivain brésilien Harry Laus dépouille notre univers. Découverte d'une voix qui bouleverse par sa nudité.

Avec la sortie de deux recueils de nouvelles, les éditions José Corti entament la publication des oeuvres complètes d'Harry Laus, écrivain brésilien atypique, mort en 1992. Deux premiers pans nous sont dévoilés. Ils en disent long sur l'originalité et la diversité d'un travail, qui comme l'écrit Claire Cayron la traductrice, "porte la marque du nomadisme". Harry Laus a sillonné de nombreuses régions du Brésil, écrit ses textes "partout et n'importe où". Militaire jusqu'en 1964, puis critique d'art, directeur de musée, son oeuvre semble construite à l'image de cette vie errante. Laus excelle dans la description de lieux sans attaches. Ce n'importe où, c'est un port, un village, une rue, parfois une simple maison. Le génie de l'écrivain consiste à transformer ce n'importe où en partout. Il lui insuffle la dimension de l'universel.

Paradoxalement, son nomadisme donne à Laus le pouvoir de traiter justement, de l'immobilité. Car c'est le thème central ici. L'écrivain brésilien a su brasser des centaines de lieux, pour s'inscrire en observateur parfait d'une réalité à l'échelle humaine la plus réduite. Rien ne compte ici, à part les hommes et les femmes qu'il va placer au centre de la scène. Harry Laus parle en connaissance de cause, et l'immobilité dont il est question porte le poids de la fatalité.

Malgré la diversité de ses manifestations (Claire Cayron annonce des "récits inqualifiables", un roman, une autobiographie et un journal intime), l'univers de Laus bénéficie d'une cohérence à toute épreuve. La force de cette oeuvre réside là : une multitude de formes pour une seule voix.

Sentinelle du néant regroupe trois textes assez longs, dans lesquels l'écrivain pose son décor avec minutie. Et s'il prend son temps pour les éloigner du carcan de la nouvelle, c'est pour mieux resserrer l'étau autour des personnages, concentrer l'attention sur leur condition. Le Saint magique débute ainsi : "La pointe sèche du compas fichée au point où se situe la maison d'Altaïr, sur la carte de Porto Belo; l'ouverture du compas suivant un angle égal à deux cents mètres de rayon; la mine trace un cercle. Et l'on a l'aire insignifiante où évoluent les personnages de cette histoire..." Laus délimite soigneusement, élague son champ de manoeuvres. Une fois le décor ancré, il tient ses personnages. Aucun ne passera les limites imposées au départ.

Quelle que soit la forme utilisée par l'écrivain, les décors ont toujours la même teinte. Sa parole est sombre, presque lugubre. Le regard qu'il pose sur le monde n'est pas pessimiste pour autant, Laus montre sans jamais démontrer. Il ne juge pas. Il fait part.

Ainsi, pour révéler la folie de Zénon des plaies, l'antihéros du second texte de Sentinelle du néant, lui suffit-il de décrire ses gestes. Zénon accumule les réveils, en achète des dizaines, dans le but d'arrêter le temps. Il se sent investi d'une mission qui sauvera la planète. Laus est très doué pour décrire le mouvement, capter la signification du moindre geste: "Certains matins, il se réveille avec de telles réserves d'énergie que remonter le réveil et regarder le paysage par la fenêtre, descendre toutes les marches de l'escalier et passer la journée entière au travail fatigant du bureau ne sont pas des activités suffisantes pour l'épuiser. Il revient chez lui, monte les marches quatre à quatre et, haletant, ouvre la porte. Quelques minutes après sa respiration se régularise et les forces reviennent au bout de ses doigts. Il fait de la gymnastique, se sent devenir l'athlète qu'il n'a jamais été, la sueur inonde son corps." Laus rend compte, fidèlement. Et le couperet tombe de lui-même sur Zénon des plaies.

Les lecteurs de Bis évolueront dans le même univers, même si en lisant ces vingt nouvelles à la forme plus conventionnelle, ils emprunteront un autre chemin.

L'obscurité, la pauvreté, le dépouillement, ces éléments reviennent inlassablement. Les personnages sont assis au milieu de l'impasse. Les scènes de deuil abondent, par exemple. Plusieurs enterrements rythment le recueil de nouvelles. Chaque fois, c'est l'occasion d'une réunion dans le silence, et pour les personnages, d'un triste constat de gâchis. La scène est vécue dans le dénuement le plus total. La Couronne est une quête organisée pour parvenir à payer des fleurs au défunt. On se concentre sur la figure de l'absent. Requiem évoque le transport d'un cadavre en taxi, pour respecter les dernières volontés de la défunte : "En regardant le profil dessiné sous le drap, Inacia comprit vraiment la grandeur de la mort. Tel était l'état définitif- que personne ne souhaite, mais auquel on se prépare toute la vie."

Lorsqu'il n'évoque pas la mort, Laus s'attache aux ravages du temps. Jandira présente une structure dépouillée et une action réduite au minimum. Une jeune fille sert une vieille femme, clouée dans un fauteuil roulant, qui ne cesse de la martyriser à cause de "ça". Elle découvrira à la fin l'exacte signification de ces étranges paroles.

Harry Laus évoque également les casernes. Lieu de l'attente, d'un cloisonnement masculin, on peut y observer de belles faiblesses. Ainsi Laus parvient il à rendre à merveille, dans Le Document secret, le mécanisme de la délation. Le major Pitanga, qui par intérêt personnel, dénonce un officier, perd ses moyens lorsque le colonel indique qu'il devra utiliser son nom pour mener l'enquête : "Pitanga s'agita dans le fauteuil, porta les mains à son visage et le découvrit ensuite, complètement défiguré, lunettes ôtées, les globes de ses yeux arrondis à la dimension exagérée des boutons de sa capote."

Le style de Laus ne s'encombre jamais. Il va droit au but :"Rosália ne verrait plus, désormais, le col bleu flottant dans le vent." Harry Laus met l'homme à nu et tente de saisir ses comportements, dans les moindres détails. Il pose le pinceau sur la faille et touche l'essentiel.

Universalité, atemporalité, tout est là pour faire une grande oeuvre. On attend avec impatience la suite de ce travail de traduction qui devrait s'étaler jusqu'en 2004.

Benoît Broyart
Magazine Littéraire Matricule des anges

Grandeza sem disfarce / Grandeur sans fard

Com a saída de dois livros de novelas, Edições José Corti inicia a publicação das obras completas de Harry Laus, escritor brasileiro morto em 1992. Duas primeiras faces nos são reveladas. Elas dizem muito sobre a originalidade e variedade de um trabalho que, como escreveu Claire Cayron, sua tradutora, "traz a marca do nomadismo".

Harry Laus percorreu várias regiões do Brasil e escreveu seus textos "por toda parte e não importa onde". Militar até 1964, depois crítico de arte, diretor de museus, sua obra parece construída à imagem desta vida errante. Laus excede na descrição de lugares sem prender-se. Não importa onde, se um porto, uma vila, uma rua, por vezes uma simples casa. O gênio do escritor consiste em transformar este "não importa onde" em "por toda parte". Ele lhe insufla a dimensão do universal.

Paradoxalmente, o nomadismo dá a Laus o poder de tratar justamente da imobilidade. Portanto, é este o tema central aqui. O escritor brasileiro mistura centenas de lugares para se inscrever como observador perfeito duma realidade à escala humana a mais reduzida. Nada conta aqui, a não ser os homens e as mulheres que ele vá colocar no centro da cena. Harry Laus fala com conhecimento de causa, e a imobilidade questionada traz o peso da fatalidade.

Apesar da diversidade de suas manifestações (Claire Cayron anuncia "trabalhos inidentificáveis", um romance, uma autobiografia e um diário íntimo) o universo de Laus se beneficia de uma coerência à toda prova. A força desta obra reside numa multidão de formas para uma só voz.

Sentinela do Nada agrupa três textos bastante longos, nos quais o escritor estabelece seu décor com minúcias. E se ele toma seu tempo para as distanciar do cerne da novela é para melhor estreitar o entusiasmo em torno dos personagens, concentrar a atenção sobre suas condições. O Santo Mágico começa assim: "A ponta seca de um compasso cravada no ponto onde fica situada a casa de Altair, na carta topográfica de Porto Belo; a abertura do compasso num ângulo correspondente a duzentos metros de raio; o grafite traçando um círculo. É esta a área insignificante por onde se deslocam os personagens desta história". Laus delimita cuidadosamente, limpa seu campo de manobras. Uma vez estabelecido o cenário, ele traz suas personagens. Nenhuma ultrapassará os limites impostos à partida.

Qualquer que seja a forma utilizada pelo escritor, o cenário tem sempre a mesma tinta. Sua palavra é sombria, quase lúgubre. O olhar que ele pousa sobre o mundo não é no entanto pessimista. Laus mostra sem jamais demonstrar. Ele não julga, ele faz parte.

Assim, para revelar a loucura de Zenão das Chagas o anti-herói do segundo texto de "Sentinela do Nada", lhe é suficiente descrever os gestos de Zenão que acumula relógios que compra às dezenas, no propósito de parar o tempo. Zenão sente-se investido de uma missão que salvará o planeta. Laus é hábil para descrever o movimento, captar a significação do menor gesto: "Há manhãs em que se acorda com tais reservas de energia que dar corda no relógio e olhar a paisagem pela janela, descer todos os degraus da escada e passar o dia inteiro no trabalho exaustivo do escritório não são atividades suficientes para esgotá-las. Volta para casa, sobe os degraus de dois em dois e, ofegante, abre a porta. Dentro de poucos minutos a respiração se normaliza e as forças retornam-lhe às pontas dos dedos. Faz ginástica, sente-se o atleta que nunca foi, o suor molha seu corpo". Laus presta contas, fielmente. E o machado cai-lhe das mãos sobre Zenão das Chagas.

Os leitores de Bis evoluirão no mesmo universo, mesmo que leiam estas vinte novelas da forma mais convencional, empreenderão um outro caminho. A obscuridade, a pobreza, o despojamento, estes elementos retornam incansavelmente. As personagens são jurados no meio do impasse. As cenas de luto são abundantes, por exemplo. Vários enterros cadenciam o centro das novelas. A cada momento há ocasião para reuniões no silêncio, e para as personagens, a triste constatação de um acidente. A cena é vencida com o mais perfeito desfecho. A Coroa é uma subscrição organizada a fim de comprar flores para um defunto. Concentra-se sobre a figura da ausência. Réquiem evoca o transporte de um cadáver em táxi para respeitar a última vontade da defunta. "Olhando o perfil desenhado sob o lençol, Inácia compreendeu verdadeiramente a grandeza da morte. Ali jazia o estado definitivo - que não se deseja, mas se prepara, por toda a vida".

Quando não evoca a morte, Laus se apega aos estragos do tempo. Jandira apresenta uma estrutura despojada e uma ação reduzida ao mínimo. Uma jovem serve a uma velha senhor, presa a uma cadeira de rodas, que não cessa de martirizá-la com a palavra "aquilo". A jovem descobrirá no fim o exato significado daquela estranha palavra.

Harry Laus evoca igualmente as casernas. Sala de espera de um enquadramento masculino, onde se pode observar grandes fraquezas. Assim Laus alcança a perfeição em O Documento Secreto (Le Document Secret), o mecanismo da delação. O major Pitanga, que por interesse pessoal denuncia um oficial, perde sua segurança quando o coronel o indica para conduzir o inquérito. "Pitanga agitou-se na poltrona e levou as mãos à face para descobri-la totalmente desfigurada, sem óculos, os dois pontos de sempre arredondados na dimensão exagerada dos botões do seu capote".

O estilo de Laus não se obstrui jamais. Ele vai direto ao alvo: "Daquela tarde em diante, Rosália não mais veria sua gola azul agitada pelo vento". Harry Laus põe o homem a nu e tenta compreender seus comportamentos, nos íntimos detalhes. Ele pousa o pincel sobre a tela e registra o esencial.

Universalidade, atemporalité, está tudo lá para fazer uma grande obra. Esperamos com impaciência a seqüência deste trabalho de tradução que deverá estender-se até 2004.

Artigo de Benoît Broyart, publicado no Matricule des Anges
Tradução de Ruth Laus, irmã de Harry.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Carnaval de 1961



A cantora Elizeth Cardoso e Harry Laus (fantasiado) no Baile do Pierrot, em 1961, tradicional baile de carnaval organizado pela saudosa escritora Eneida (1904-1971) no Rio de Janeiro. Abaixo da foto um exemplar do convite que Eneida enviava aos convidados, onde se lia: "este próprio, muito pessoal e intransferível faz participar do 8º baile do pierrot aqui neste Rio, aos 8 de fevereiro de 1965 na boite TOP, na praça do lido, das 23 às tantas. Mas, Eneida exige de (nome do convidado) traje a rigor ou rigorosamente a fantasia de reconhecivel pierrot, arlequim ou colombina."

sábado, 19 de abril de 2008

Harry Laus na Confraria dos Bibliófilos do Brasil

A Confraria dos Bibliófilos do Brasil selecionou contos de Harry Laus para a sua edição especial de Natal de 2007. Livro totalmente artesanal, em tiragem limitadíssima, encadernado e costurado à mão com impressão tipográfica também manual em exemplares assinados e numerados. Em formato grande (22 x 29cm) tem ilustrações serigráficas especialmente realizadas pelo artista plástico catarinense Jayro Schmidt. A Confraria tem sede em Brasília (seu presidente é José Salles Neto) e pode ser contatada pelos telefones (61) 3368.1792 e 3577.3224, ou pelo email conbiblibr@yahoo.com.br

quinta-feira, 17 de abril de 2008

le 3 août 1950

"Ce n'est pas seulement pour écrire "3 août" que je me suis assis à ma table et que je viens d'ouvrir ce carnet. mais ce n'est pas non plus pour parler d'un sujet précis. C'est pourquoi je suis resté plusieurs minutes en suspens, sans savoir quoi dire, et craignant de n'avoir à écrire, finalement, que la date.

En ce moment, je ne sais pas davantage ce que je vais dire, mais cette indécision ou cette ignorance, ou absence de projet se reflète souvent dans mes actes. A force de vouloir trouver les origines de ce comportement, j'en viens à le justifier par le fait d'avoir toujours dû chercher et découvrir, par moi-même, tous les mystères et lieux obscurs de la vie. De n'avoir jamais eu personne pour me guider: ni mère, ni père, ni frère."

(Harry Laus. Journal absurde. Traduit par Claire Cayron. Paris: Corti, "Ibériques", 2000, p. 120)

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Samedi, dix heures

A primeira bala

Samedi, dix heures

Le premier texte que je découvre de l’écrivain brésilien Harry Laus est aussi son premier publié en France, La première balle, une nouvelle brûlante, nourrie d’un superbe revirement. C’est un texte de dix pages, pas plus, précédé d’une préface de Laus lui-même suivi du texte original portugais, puis d’un entretien avec Bernard Bretonnière. L’opuscule est une co-édition des éditions Arcane 17 et de la Maison des Ecrivains Etrangers et des Traducteurs de Saint-Nazaire (dont le sigle M.E.E.T. doit avoir une signification acronymique délibérée).

J’ai lu ce bref récit chemin faisant, en marchant sous un beau soleil retrouvé, dans la douceur de cet automne qui se refuse à commencer vraiment, en allant chercher A. à l’école. Je connais le trajet par cœur, et j’aime généralement profiter de chaque instant, des moindres bribes, des plus infimes variations dans le spectacle, des plus menues nouveautés apportées au décor. Mais là, j’avais envie de lire. De lire La première balle de Harry Laus.

Il vaut mieux ne pas résumer une si brève nouvelle, et il reste donc peu à en dire, si ce n’est qu’elle fut lue chemin faisant, par un fou trop patient, inattentif (pour une fois) aux chats, aux traces d’avion dans le ciel, aux marrons écrasés sur le trottoir, aux visages croisés, aux bordées des véhicules.

Il me reste donc, seul recours en ces cas délicats, à recopier une phrase que j’ai particulièrement aimée, en français et en portugais :

Em vez disso, dei-lhe as costas porque a lembrança de Maíra encheu-me de súbita tristeza e aquele rapaz não tinha o direito de partilhá-la.

Au lieu de cela, je lui tournai le dos parce que ce souvenir m’emplit d’une subite tristesse et que le garçon n’avait pas le droit de la partager.

P.S.: J'ai omis de préciser que la traductrice de ce texte de Harry Laus s'appelle Claire Cayron (et que la nouvelle a été écrite au Cay-Rou...!)

(Extraído do blog Touraine Sereine postado em 8 de outubro de 2005)

No Rio em 1980

Harry Laus autografando livro no Rio de Janeiro em 1980

Harry Laus - um encontro

Acontecem algumas coisas engraçadas comigo. Por exemplo, a forma como vim a ouvir falar de Harry Laus.

Um dia estava escutando um programa literário na RFI (Radio France Internationale) quando a repórter começou a falar entusiasticamente sobre um escritor brasileiro chamado Harry Laus, que morreu em 1992 e estava tendo sua obra completa traduzida e publicada na França. Prestei atenção porque nunca tinha ouvido falar em Harry Laus e o entusiasmo da francesa me pareceu estranho. Além disso, os textos de Laus estavam sendo traduzidos para o francês nada menos que pela grande Claire Cayron, a prestigiada tradutora de, entre outros, Miguel Torga e Caio Fernando Abreu.

Fiquei pensando: "Putz, os franceses lá híper empolgados com esse tal de Harry Laus, e eu que nunca ouvi falar dele..." Me deu uma certa vergonha, sim. Então agora eu era obrigado a ouvir falar de escritor brasileiro através dos franceses??? Nem o Nelson de Oliveira, que tem feito um belo trabalho de resgate de grandes autores esquecidos, tinha falado dele. Fui pesquisar e quase não achei nada sobre Harry Laus. O Submarino não tinha nada sobre ele, e não ter nada no Submarino é quase sinônimo de inexistência. Na reportagem da RFI se dizia que Laus era homossexual (um detalhe, só), e sempre me interessei por escritores homossexuais, principalmente os que escreviam na minha língua. A repórter derramava-se em elogios sobre o estilo do autor, sobre os livros que estavam sendo publicados na França.

Pesquisei mais um pouquinho e achei detalhes: Laus tinha nascido em Santa Catarina (ah, tava explicada a sua "inexistência"), fora militar, escritor, ensaísta, diretor de museus. Era o autor de um romance chamado Os papéis do Coronel, elogiadíssimo, usado em provas no Vestibular. Era praticamente impossível achar alguma obra sua pra comprar. Sua irmã, a jornalista Ruth Laus, era quem estava "mantendo viva" a sua obra, publicando-a através do apoio governamental lá em Santa Catarina. Fiquei com vontade de escrever para ela, pedindo que me enviasse algum exemplar de uma obra do irmão, mas acabou que me esqueci de tentar achá-la na internet.

Não é que hoje topei, totalmente por acaso, com um volume que reúne seus contos e novelas? Ao juiz dos ausentes, uma belíssima edição feita por sua irmã Ruth. Com fotos, cronologia das obras, cartas e estudos de alguns intelectuais e escritores do Brasil (Jorge Amado, Renard Perez) e da França. E por uma pechincha, na Berinjela. Mais do que depressa, catei as moedinhas e comprei o livro. Ele reúne seis livros do autor: Os incoerentes, Ao juiz dos ausentes, O santo mágico, Caixa d'aço, Sentinela do nada e Monólogo de uma cachorra sem preconceitos. Logo na orelha, fui fisgado por dois textos de H. Laus:

É fundamental que não se aceite simplesmente a vida: é preciso sofrê-la, interpretá-la, dirigi-la a um fim que tudo justifique. Acreditar em si e nesse objetivo até o momento em que fique provada a inutilidade desse ideal, ou a impossibilidade de realizá-lo. Então, ter a coragem e a força para substituí-lo. Tudo isso a vida exige de nós; portanto, depende de nós, é grande a missão que nos foi confiada.

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Enquanto limpava um pouco o jazigo e olhava o medalhão com o retrato de Egeu, pensei que naquele pedaço de terra eu também estarei um dia. Pensei nisso tranquilamente, não como em criança. Naquele tempo eu tinha medo de morrer e quando voltava do cemitério via cruzes por todo o quarto, de noite, e me atemorizava pela incompreensão da morte. Hoje ainda não a compreendo, é certo, mas aceito-a calmamente, aceito sua realidade sem medo, mas com muita tristeza... porque minha vida, como é, e pelas esperanças que deposito nela, eu a amo e não desejo perdê-la.

Não são textos ficcionais, mas são belos textos que deixam adivinhar o escritor que Laus é. Comecei lendo o primeiro conto do livro: Os minutos do professor. Uma pequena obra prima (2 páginas) de contenção e equilíbrio.

Abaixo vai uma pequena Biografia, que achei na internet (há também uma análise de seu romance Os papéis do coronel):

Seguiu a carreira militar, aposentando-se em 1964. Foi renomado crítico de Artes, conhecido no Brasil inteiro por sua intensa atividade jornalística que se estendeu por trinta anos. E também foi escritor, atividade que, somada à de leitor, constituiu a verdadeira paixão de sua vida. Publicou muitas novelas e contos na França, inclusive Les Jardins du Colonel, traduzido no Brasil como Os Papéis do Coronel. Para a tradutora francesa, Harry Laus atinge a emoção sem desperdícios, através de intenso trabalho.

Era um escritor muito meticuloso, consciente e refletido. Escrever era um trabalho ao qual ele se atirava com sua habitual seriedade e um frenético desejo de atingir "o resultado, o sumo, a essência", nas palavras do Coronel desse romance. Aliás, único romance de Harry Laus. Em Os Papéis do Coronel, o texto coloca seriamente a questão do escrever, deixando-nos o testemunho do processo literário de Harry Laus, suas angústias, questionamentos e seu caminho interior.

Harry Laus nasceu em 1922, em Tijucas, e morreu em Florianópolis em 1992.

Saint-Clair Stockler

(Extraído do Live Journal de Saint-Clair Stockler, escrito em 8 de junho de 2004 - Saint-Clair é escritor, poeta, tradutor e professor e vive no Rio de Janeiro)