terça-feira, 14 de maio de 2013

Harry Laus escreve do Nordeste em 1947

Publicada entre 1946 e 1948, pelo contista Dalton Trevisan (nascido em Colombo, região da grande Curitiba, PR, em 1925), Joaquim foi a mais importante revista jovem brasileira de todos os tempos, pois aliava arte e cultura, dando às suas páginas uma leveza gráfica ímpar. Na cola dela, surgiram inúmeros veículos jovens por todo o Brasil, pois aquele era um momento de entrada, no campo literário, de uma vasta população de produtores culturais, principalmente os das províncias – cujas cidades os moços tentavam habitar modernamente, rompendo com os passadismos.

Distribuída em praticamente todos os estados, Joaquim rapidamente se tornou um sucesso nacional, recebendo colaboração de todos os cantos. Somente no número 11, em junho de 1947, o catarinense Harry Laus começa a publicar nela uma pequena série de cartas do nordeste. Neste ponto da história da revista, ela já era mais brasileira do que curitibana e a presença de Harry Laus reforça o ideário desse projeto coletivo.

Laus escreve cartas num estilo altamente palatável, sem nenhuma pose professoral, bem dentro da gramática descontraída da revista. Há um tom ficcional nessas cartas, dirigidas não ao editor, mas ao personagem Joaquim, tomado como uma pessoa de carne e osso.

O catarinense busca não as belezas turísticas de Natal, mas a cidade viva, sua linguagem e as histórias simples. Há, nas quatro cartas, um carinho pelas pessoas comuns, percebidas como fonte artística. Este mesmo sentimento de amor pela periferia, um amor moderno, vai marcar toda a produção contística de Trevisan e a atuação da Joaquim. Harry Laus se deixa encantar pelos hábitos nordestinos, relatando-os com muita afetividade: “Interessante foi a garotada na estação vendendo água para beber – olha a água fria! – a duzentão o copo” (n.11, p.18). Tudo é descoberta para esse habitante do sul que, como toda a sua geração, busca ler, pela língua da experiência, os outros brasis.
Tal interesse pelo país fica ainda mais evidente na segunda carta (n. 12, p. 14), quando ele conta os encontros com Câmara Cascudo, um dos nomes centrais de nosso nacionalismo modernista. É esta pátria profunda que o escritor catarinense desvela para Joaquim, fascinado pelo sabor de suas expressões e por sua culinária.

Deixando Natal, de trem, ele chega a Recife, atrás do mesmo contato íntimo com a cidade. Depois de compartilhar suas descobertas, abandona a escrita da carta para dar prosseguimento à sua viagem amorosa pela região: “Adeus. Antes de ir embora ainda preciso descobrir para que lado corre o rio: quando penso que é para um, a maré empurra para outro” (n.14, p.18). Nestas duas forças antípodas, vislumbradas na luta entre o rio e a maré, está localizada a tensão que vai marcar a passagem do escritor pelo nordeste. Na carta seguinte, última colaboração sua na revista, ele sofre o desejo de retorno: “Não quero mais ver as praias e esta lua extravagante daqui, nem ouvir o doloroso lamento do animal mais contemplativo deste mundo, o jumento. Preciso andar debaixo do céu daí, ver as florestas daí, dormir com acolchoados de penas, sentir frio e falar saindo fumaça da boca” (n.17, p.17). E assim se fecha o ciclo que marcou os daquela geração. Eles querem largar a cidade, descobrir o Brasil e o mundo, para poder voltar e fundar uma nova cidade natal. É o que poderíamos chamar de ética do filho pródigo, um movimento típico de culturas novas, em processo de afirmação. Conhecemo-nos em contraste com outras culturas, importando coisas mas também ressaltando algumas características próprias.

Se Harry Laus se entusiasma com as cidades e os tradutores de seu diferencial linguístico, geográfico e humano, ele não perdoa a tacanhez da arte provinciana e faz uma crítica irônica a um espetáculo encenado no Teatro Carlos Gomes, em Natal – n. 15, p.6. Era o contato com o homem nacional periférico que lhe interessava, porque os modelos técnicos ele os buscava nas altas literaturas.
Tal como confessa à Joaquim (n.13, p.18), num depoimento que trata de sua opção pelo conto e de suas dúvidas e certezas. Laus valoriza o artesanato na construção do conto, o trabalho com a linguagem, apontando como mestres contemporâneos: Joyce, Gide, Virgínia Woolf, Proust e Sartre – e não é mera coincidência o fato de todos esses autores terem sido publicados nas páginas da Joaquim – uma revista que condensou o espírito de uma época de abertura para mundo.

(Publicado no Jornal "Ô Catarina!" de 1 de maio de 2002)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Hermínio Bello de Carvalho com Laus, Canabrava, Lucio Cardoso e outros...


Harry Laus foi grande amigo e conviveu longamente no Rio de Janeiro com os pintores Walter Wendhausen e Luis Canabrava. Aqui, Hermínio Bello de Carvalho, nas Memórias gravadas no seu "Blog do Acervo HBC" ele conta do ambiente cultural daquela época:

(...) "Lembro que, nas décadas de 40 e 50, aqui no Rio de Janeiro, era moda freqüentar a casa do escritor Aníbal Machado, pai da teatróloga Maria Clara (“Pluft, o fantasminha”) de igual sobrenome.

Me lembro, e muito muito vagamente, de ter passado por lá. Tertúlias, saraus, essas coisas andavam na moda. Algumas pecavam pelo excesso, com declamações que inevitavelmente desaguavam n’ “O Corvo” de Poe. Eu mesmo, encarapitado numa cadeira, dei os meus vexames iniciais num sarau promovido no bairro da Glória por um moço chamado Burlamarqui. Perdoemos aquele garoto de uns 5 anos, mas já afiado no “Periquitinho verde” do Nássara.

A formação intelectual de muita gente se deu assim, nesses convescotes nada convencionais. Cheguei a formar um duo violão-violino com meu amigo Luiz Carlos de Castro, para entreter um bando de desocupados que passavam pelos salões da Baronesa. A Baronesa era um funcionário graduado do Itamaraty. Ali se tocava, ali se comia e bebia, dali a gente se escafedia na célebre “hora da valsa”. Prefiro não entrar em detalhes.

Walter Wendhausen, Paulinho da Viola e Luis Sérgio Bilheri Nogueira

Quem não ouviu falar do Sábadoyle? Mas ali era uma concentração de pensadores peso-pesados, como Drummond de Andrade e Pedro Nava. Eram reuniões intelectualíssimas, como as que, até pouco tempo, nosso Oscar Niemeyer promovia em seu apartamento para discutir filosofia, física quântica e coisas afins.

Em São Paulo, Mário de Andrade era o centro de atenções na célebre casa da rua Lopes Chaves – o endereço intelectual mais célebre na desvairada Paulicéia dos anos 30/40. O carteiro despejava toneladas de cartas por dia, e até hoje não sei como o poeta dava conta do recado.

Contam (“O leitor apaixonado”, de Ruy Castro) que era assim, também, na casa de Gertrude Stein em Paris. Lá você esbarrava em Hemingway, Picasso, Cézanne, Matisse, Hemingway, Ezra Pound, T.S. Elliot...

Os grupos iam nascendo e se informando desse jeito, se alimentando dos contatos riquíssimos como aqueles proporcionados à gente da bossa-nova. João Gilberto, dizem, ia pouco por lá. Mas quando ia, que festa! era um passando o violão pro outro, tentando copiar o acorde inventado pelo Mestre. Eu já era taludinho, naquela época, quando a bossa-nova abriu seu berreiro (seus sussurros, aliás). Falo do finzinho da década de 50, quando 99% das pessoas interessadas em música popular se apaixonaram por suas invenções. José Ramos Tinhorão escovava os dentes com cicuta, já nessa época, para esfolar Tom Jobim em seus raivosos comentários críticos.

Mas voltemos ao apartamento de Walter Wendhausen e Luiz Canabrava, ambos pintores vanguardistas, mas que exerciam seus ofícios ilustradores no departamento de publicidade do Magazine Mesbla (Mestre et Blaget?), com desenhos academicíssimos de fogões, lamparinas, serrotes e o que mais se possa imaginar. Ossos do ofício. Eneida, Leonardo Villar (bem antes, portanto, de estrelar o “O pagador de promessas”), Van Jafa, Lucio Cardoso e sua irmã, a também romancista Maria Helena Cardoso, Harry Laus, quem mais? Muita gente. Grana pouca, cada um levava sua birita, ou ia pendurar sua conta com o Fernando, ali próximo no Lamas (ainda no largo do Machado).

Vamos nos situar: o ano, 1951. O apartamento era na Dois de Dezembro, meio Catete, meio Flamengo. Rio de Janeiro, portanto. Milhares de discos de 78 rotações, e havia de tudo: Aracy de Almeida, Louis Armstrong, Piaf, Pixinguinha, Fats Waller. Ecletismo musical era ali mesmo. E bebia-se Drummond e embriagava-se com Manuel Bandeira (com a poesia deles, esclareço, que desconheciam nossas existências). Braque, Picasso, Chagall, Modigliani. “O Encouraçado Potenkin” (só iria ver o filme muitos anos depois), as vanguardas teatrais ensaiando seus passos, as vernissages concorridíssimas – nada nos faltava em termos de informação. Tallulah Bankhead ou Erich Von Ströheim, Marlene Dietrich ou as “expansions” de César. Tudo praticamente tridimensionado, porque imaginação é o que não nos faltava. A grana?, curtíssima. No Lamas e no Bar Recreio nos abastecíamos de cerveja ou gin tônica, e nos deliciávamos vendo a Divina Elizeth entrar na companhia de seu namorado Ewaldo Ruy e, pasmem!, Ary Barroso.

Todo esse preâmbulo é para contextualizar a época virtual em que vivemos, escravos da Internet, e onde tertúlias e saraus saíram de moda ou se realizam um pouco às escondidas.

Fui procurado por um jovem pesquisador, a quem foi encomendado um livro sobre Luiz Canabrava. Ora, direis, quem hoje ainda lembra de Canabrava e Wendhausen? Mas eu que os freqüentei, que com eles convivi, posso atestar: a casa dos dois equivalia a um centro cultural – e acho que Paulinho da Viola deve pensar a mesma coisa.

O artista plástico Luiz Canabrava (c.1960)

Porque nos conhecemos, primeiramente, nos célebres saraus de Jacob do Bandolim, naquela casarona em Jacarepaguá. Em que anos estamos? Possivelmente 1955/56. Ele, Paulinho, na companhia de seu pai, o violonista Benedito César Faria. E eu municiando aqueles saraus com as cordas mágicas de meus amigos Maria Luisa Anido, Oscar Cáceres, Nicanor Teixeira, Jodacil Damasceno e um então menino chamado Turíbio Santos.

Paulinho começava a escrever em sua história num bloco de Botafogo, eu morava no bairro da Glória, já pertinho da Taberna.

– Olá, como vai?
– Eu vou indo, e você?

E é claro que não foi bem assim. Ele trabalhava num balcão de um banco onde eu ia pagar contas, um olhou pra cara do outro – a gente já se conhece, né? – e nos conhecíamos sim das rodas de choro na casa de Jacob. Conhecíamo-nos “de vista”, como se diz comumente. A partir daí nos tornamos amigos e, acho eu, parceiros.

Parceiros também no convívio com Walter Wendhausen, que morava com Luiz Canabrava – ambos desenhando anúncios de dia, e nos fins de semana continuavam pintando, inclusive o sete. Porrancas federais.

Vamos, agora, nos mudar para Copacabana – década de 60, nova residência do Walter. Em frente, moravam Toninho e Liana Ventura. Mais tarde, mas muito mais tarde, a filha do casal, Lianinha, se casaria com Raphael Rabello (que viria a ser cunhado de Paulinho, que desposou Lila, que tem o poeta Paulinho Pinheiro como cunhado, casado que é com Luciana Rabello, a Magnífica). Mas não vamos desfolhar o calendário antes do tempo.

Avenida Nossa Senhora de Copacabana, perto da Duvivier, que apartamentão! Liana, filha do senador Dix-Huit Rosado, e Walter já morando num prédio que dava de cara com o do casal Ventura. Para estabelecer amizade eterna, com juras de amor ad infinitum, foi um pulo. “Marreco” era como Liana apelidou Walter. Não me perguntem pela foto em que aparecem Clara Nunes e Martinho da Vila numa daquelas feijoadas memoráveis promovidas pelo casal. Não saberia precisar a data.

Mas, e pontuando apenas essas lembranças: a casa dos Ventura era um território livre, mas não com as características da casa de Aníbal Machado ou da antiga residência de Walter. Alguns remanescentes, como Harry Laus e Eneida (sempre com um copo de uísque à mão) permaneceram. Grande Eneida que lavrou seu memorável epitáfio: “Essa mulher nunca topou chantagem”. Na época do golpe de 64, Wendhausen arrumava as trouxas e ia dormir na casa da escritora, temendo que ela fosse presa. Iria junto. E seriam inevitavelmente soltos. Ninguém iria agüentar e esbórnia que certamente promoveriam.

Fiquemos, pois, naquela década sessentina, Paulinho já amigo e admirador de Walter. Lembro do vaticínio de meu amigo:

– Paulinho vai ser um dos grandes.

O “Rosa de ouro”, de 1965, iria confirmar a previsão. O “Rosa” tinha assento vitalício para Wendhausen na platéia do Teatro Jovem.

Bem, retomemos o fio da história. O jovem candidato a pesquisador, encarregado de biografar Canabrava, descobre meu e-meio e me obriga a escavoucar territórios que julgava demolidos, execrados, expulsos de minha lembrança.

Claro, o assunto me interessa. Tenho, às pencas, quadros de Wendhausen e Canabrava – e lembranças vivíssimas daquela época, para mim, de ouro. Imagine, em 51, saindo das calças curtas e descobrindo sua sexualidade, e aluno da vizinha Escola Amaro Cavalcanti (onde mais tarde Paulinho também estudaria) me descobrir habitando o mesmo Olimpo de pessoas que só conhecia à distância. Pois tive que fazer um processo de regressão, pra responder ao questionário que me foi enviado: onde, quando, como conheci Canabrava.

Nesse troca-troca de e-meios, meu jovem interpelante vai catando as pistas que lhe dou, vasculha nosso saite, encontra fotos de Canabrava, escarafuncha escaninhos empoeirados – e se deslumbra com o fato de Paulinho da Viola ter se inspirado no livro “Por onde andou meu coração” para compor o “Foi um rio que passou em minha vida”, numa época em que embaralhei sua vida artística com um samba-exaltação, e qual?, “Sei lá, Mangueira”. Ele portelense, eu um verde-e-rosa arrastando-o pra um samba em homenagem à escola oponente. E onde conheceu Maria Helena Cardoso, Elena, irmã de Lúcio, autora do livro? Na casa de Walter e Canabrava, suponho eu. (O jovem é também biógrafo de Lelena e desconhecia esse fato).

Todos nós somos, um pouco, frutos de uma época que, igual à de Aníbal Machado ou Gertrude Stein, os poetas músicos pintores se alimentavam de pensamentos, desovando em matéria-prima rara aquilo que nossos sábios mentores, sem saberem-se mestres, nos ditavam.

Forneço esse resumo porque, cada vez mais, me sinto fazendo uma viagem regressiva ao apartamentinho de Wendhausen e Canabrava, que tanto e tanto me ensinaram.

Quando vejo a meninada da Escola Portátil de Música, e as experiências relatadas por eles e seus Mestres Oficineiros, percebo que cada um teve fomentada suas vocações por wendhausens e canabravas. E, independentemente das obras artísticas que nos legaram, advertiram-nos o quanto é preciso aguçar a arte de prestar atenção.

Meu jovem pesquisador, aspirante a biógrafo de Canabrava, me fez encontrar na Internet essa pérola: “Como diria o artista Walter Wendhausen, o mundo está aí, com tudo que tem de belo, para ser visto – basta saber olhar”.

Paulinho da Viola, com sua percepção aguda e um verso extraordinário, talvez nem tenha lido essa declaração de Wendhausen – mas que estava na essência de nossa relação com aquele artista. Aliás, com aquele grupo de artistas.

Afinal, as coisas estão no mundo – bastando-nos apenas apurar a arte do apercebimento."

Link original: 
http://acervohbc.blogspot.com.br/2010_05_01_archive.html


domingo, 30 de setembro de 2012

Harry Laus em Saint-Nazaire, França


Harry Laus, em julho de 1988, visita os túmulos de Dissignac*, próximo a Saint-Nazaire, França, e fala de suas influências, de seu recente livro e de seus projetos...
(direitos de MEET -- Maison des Écrivains Étrangers et des Traducteurs, Saint-Nazaire, France -- Música de Geneviève Borda)
No video aparecem sua irmã Ruth Laus e sua tradutora Claire Cayron.
*Tumulus de Dissignac são uma construção megalítica com 10 câmaras funerárias situadas a 5km de Saint-Nazaire, descobertos em 1873. Estima-se que tenham sido construídos a partir de 4.700 anos antes de Cristo.
http://www.maisonecrivainsetrangers.com/Harry-Laus.html

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Travessa Harry Laus em Florianópolis


A Cidade de Florianópolis homenageou Harry Laus dando o seu nome a uma pequena travessa na Beira-Mar Norte (mais ou menos em frente a Praça Portugal), situada entre a Rua Almirante Lamego e a Avenida Jornalista Rubens de Arruda Ramos (próximo à Rua Desembargador Arno Hueschi). Clique na foto para vê-la ampliada...

Sala Harry Laus na UFSC


Sala com o nome de Harry Laus na Biblioteca Central da Universidade Federal de Santa Catarina. Com 40 lugares tem TV, som, video, tela e projetor, quadro magnético e sistema de teleconferência...

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Os irmãos Laus em Saint-Nazaire, França


Os irmãos Harry (1922-1992) e Ruth (1920-2007) em sua estadia, em 1988, na Maison des Écrivains Étrangers et des Traducteurs, em Saint-Nazaire (cidade portuária a 50km à oeste de Nantes na Foz do Rio Loire. Saint-Nazaire fica a 500km de Paris).

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Conto de Harry Laus participa de CD


Foi lançado o CD de título Encantos em Contos na Rádio produzido pela Rádio Comunitária Campeche (98,3 fm), Florianópolis, SC, sob a coordenação de Aline Maciel e Débora Daniel. Trata-se de uma antologia que reúne 17 contos de autores catarinenses que foram dramatizados para serem ouvidos.

Eis a escolha dos contos: A Dama e o General (Raquel Wandelli), Grotesca Armação (Silveira de Souza), O Povão na TV - O Povo na Rádio (Holdemar Menezes), A Primeira Noite de Liberdade (Cristóvão Tezza), Vigília de Ano Bom (Almiro Caldeira), Nem Todas as Kombis são Brancas (Mário Pereira), Noite (Guido Wilmar Sassi), Testemunha do Tempo (Guido Wilmar Sassi), O Motivo (Hoyêdo G. Lins), A Morte de Deus (Hamilton Alves), Descanse em Paz (Eglê Malheiros), O Professor de Inglês (Harry Laus), Bruxas Gêmeas (Franklin Cascaes), Pedrinho Menez Vai Voltar Rico (Flávio José Cardozo), Bruxa Rouba Meio Alqueire (Franklin Cascaes), Rosina e Pedro (Urda Klueger), O Tesouro da Nica, a Sonhenta (Rio Apa).

O referido projeto de rádio dramatização recebeu o Prêmio Roquete Pinto.

Eis a notícia conforme publicada no website da Rádio Comunitária Campeche (Florianópolis, SC):

Encantos em Contos na Rádio: rádio-dramatização dos Contos Catarinenses:

A Rádio Comunitária Campeche finalizou um importante processo de popularização da literatura catarinense, com a gravação de 17 rádio-contos, adaptados de escritores locais. Figuras importantes das letras catarinenses como Urda Klueger, Franklin Cascaes, Flávio Cardoso, entre outros, emprestaram suas criações para uma dramatização que, além de tocar na rádio, agora está também disponível em CD.

A organização do trabalho foi feita por Aline Maciel e Débora Daniel e a adaptação dos contos escritos para roteiro de rádio-dramatização leva a assinatura das duas coordenadoras, mais Sigval Shaitel, Révero Ribeiro e Marcello Trigo. Um elenco de atores e colaboradores da Rádio Campeche dá vida às histórias que falam das coisas catarinas.

O CD, chamado de “Encantos em contos na Rádio – rádio-dramatização de contos catarinenses”, recebeu o Prêmio Roquette Pinto – Primeiro Concurso de Fomento a Produção de Programas Radiofônicos – e pode ser adquirido direto na Rádio Campeche. Os recursos arrecadados servirão para manter em funcionamento esse importante instrumento de luta e organização da comunidade do Campeche.

Quem conhece a história da Rádio Campeche, nascida em 1998, fruto das importantes lutas sociais travadas no bairro, sabe: é na disputa comunicacional que reside uma importante frente de batalha na guerra contra o modo de produção capitalista que tudo destrói em nome do lucro. Assim, aliando a disseminação da cultura com a soberania comunicacional, a comunidade vai avançando pelas ondas do rádio, mostrando que é possível se fazer uma comunicação que informa e forma, sendo também conhecimento.

Quem quiser colaborar com o projeto da rádio e de quebra levar para casa o CD com os contos, é só passar na rádio ou fazer contato com a gente. Não temos preço fixo e a pessoa colabora com o que pode. O importante é fazer a sua parte no fortalecimento da cultura e da comunicação comunitária.

http://radiocampeche.com.br

Retrato de Harry Laus II


Retrato de Harry Laus por Heitor Seixas Coutinho
Óleo s/tela, sem data
91,5cm x 60,0cm
Acervo do MASC – Museu de Arte de Santa Catarina

terça-feira, 18 de setembro de 2012

FRATURA


Há exatos 20 anos e no mesmo dia, as artes visuais e a literatura perderam dois importantes entusiastas catarinenses.

Algumas pessoas não morrem. Depois do luto, elas aparecem em nova corporalidade, no legado de um corpo de ideias nascido de suas escritas, obras, pensamento, algo inquantificável, não visível. Tangentes, no atravessamento de décadas, seus acervos continuam vibrantes, se não pela força de ações físicas e intelectuais pela falta que representam no universo em que atuaram como protagonistas. O crítico de arte e escritor Harry Laus e o artista Luiz Henrique Schwanke estão na história cultural de Santa Catarina e do Brasil, como homens de ideias inovadoras que transformaram caminhos e existências.

A morte se mostra ainda mais provocadora quando, por forças desconhecidas, impõe duas perdas a um mesmo momento, como ocorreu há 20 anos com Laus e Schwanke. O dia 27 de maio de 1992 é lembrado, por alguns, como uma tragédia cultural. O fim dessas vidas interrompeu trajetórias de absoluta dedicação. “Tudo se perde quando Laus morre, porque ele dá materialidade ao circuito, estimula os artistas, oferece uma produção teórica, um corpo de referências, instrumentaliza e organiza espaços com ferramentas adequadas”, diz o artista Fernando Lindote. Na linha do tempo da história da arte, a data equivale a uma fratura exposta.

Inseridos no sistema de arte, um conjunto de relações, processos e mediações institucionais entre artistas, galerias, museus, fundações, entidades, colecionadores, gestores públicos, historiadores, estudiosos, críticos, curadores e o público, os dois atuaram nos anos 1970 e 80. Bem informados sobre o que ocorria no mundo, cada um a seu modo, lutou pela constituição, organização e difusão do patrimônio simbólico de Santa Catarina. Interlocutores no campo das reflexões estéticas, encontraram um no outro a possibilidade de diálogo e crescimento. Laus e Schwanke obrigam a pensar os desafios estéticos destas décadas, momento de modernização do sistema no Estado. Cheio de inquietudes, Laus morou em 43 cidades antes de 1976, quando retornou ao Estado como um dos críticos de arte mais respeitados no Brasil. Escritor e jornalista, tinha disposição para um trabalho contínuo que buscava a modernidade e a profissionalização. Morou em Joinville, Porto Belo, Florianópolis, não tinha um paradeiro. Dirigiu o Museu de Arte de Joinville, entre 1980 e 82, e o Museu de Arte de Santa Catarina, entre 1985 e 87, e 1989 até a sua morte.

Incansável, sempre em movimento, descobriu talentos, aproximou pessoas, produziu pensamento crítico, alavancou autoestimas. Uma análise na agenda do Museu de Arte de Santa Catarina depois do seu desaparecimento comprova que a geração dos anos 1990 ficou órfã. Instaura-se uma penumbra com o fim dos panoramas, retrospectivas, perspectivas, como denominava suas mostras. Com aguçado olhar e muito conhecimento, Laus era generoso, tinha objetivos em favor do Estado. Condutor, força basilar, mostrava-se um curador sem a vaidade visível hoje em profissionais mais preocupados com o currículo pessoal do que com as articulações necessárias ao circuito. Como crítico de arte, assinou cinco textos sobre Schwanke, praticamente um por ano. Publicadas em coluna de jornal, suas reflexões sobre a produção do joinvilense sinalizam o mestre que aponta atributos. “Com o mínimo, Luiz Henrique explora ao máximo as possibilidades das tintas, das cores, dos suportes, conseguindo sempre um resultado novo e surpreendente”, escreve em 1987. Dois anos depois, afirma que, no trabalho do artista “existe a confluência de diversas correntes atuais, o que confere consistência contemporânea. E o que lhe acrescenta maior grandeza é a centelha de invenção e criatividade que repele classificações inúteis por não precisar delas para impor-se”.

Na distância destes 20 anos, é possível falar de uma “época de Laus”, momento com uma fisionomia corajosa, audaz, poética, no qual Schwanke encontrou estímulo para avançar em suas pesquisas. No descompasso cultural de Santa Catarina, havia muito a fazer. Um apoiou o outro. “Temos que ajudar Laus a conseguir que o Masc seja todo pintado de branco, assim nossas seriam obras valorizadas exclusivamente por suas cores e formas. O nosso Masc é maior que o Kunstverein de Berlim, e tem condições parecidas de estrutura”, reflete Schwanke em uma carta que compartilha os anseios dos artistas e expõe a sintonia que os uniu.

Harry Laus
Nasceu em Tijucas em 1922. Militar, escritor, jornalista e crítico de arte, deixou uma obra substancial. Seus livros, traduzidos em outros países, em especial na França, estão no mapeamento da homotextualidade na literatura brasileira. É o autor do importante Indicador Catarinense das Artes Plásticas. Integrou a Associação Brasileira de Críticos de Arte e a Associação Internacional de Críticos de Arte. Morreu em Florianópolis.

Luiz Henrique Schwanke
Nasceu em Joinville em 1951. A produção, com cerca de 5 mil trabalhos, conjuga tradição e experimentação em três momentos distintos: em 1970, produz numa linha de cunho conceitual; em 1980, faz pinturas que apostam no emocional e, em 1990, num percurso mais racional, cria esculturas e perfis de plástico, além de instalações com o uso de luz elétrica. Alinha-se à pop art, ao neoexpressionismo e ao minimalismo. Morreu em Joinville.

* Néri Pedroso é jornalista, presidente do Instituto Schwanke
Publicado no Jornal A Noticia (Joinville) em 27 de maio de 2012

Retrato de Harry Laus I


Retrato de Harry Laus
por Lourival Pinheiro de Lima (Lôro)
Óleo s/Tela, 1992, 146cm x 106 cm.
Acervo do MASC – Museu de Arte de Santa Catarina